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Parar de Fumar – O Guia Absolutamente Completo

Dr. Pedro Henrique19 de março de 201615 min de leitura
Parar de Fumar – O Guia Absolutamente Completo

"Parar de fumar é fácil. Sei muito bem do que se trata. Já parei mais de 50 vezes." — Frase atribuída ao famoso escritor Samuel Langhorne, mais conhecido pelo seu pseudônimo, Mark Twain.

Por que parar de fumar cigarro é tão difícil? Por que, mesmo sabendo de todos os malefícios, as pessoas insistem em fazer uso do cigarro? Por que sexo é tão bom? E aquele Big Mac com batatas fritas do Mc Donald's, o cheiro de churrasco quando entramos na churrascaria, de bolo de chocolate no forno aos domingos da casa da vovó? Por que não fomos extintos durante o processo evolutivo?

Por mais desconexas que pareçam estas perguntas, digo que elas têm fundamento. Nosso funcionamento é muito influenciado pelo Sistema de Recompensa, localizado no cérebro. Trata-se de um conjunto de áreas que se comunicam entre si e enviam sinais de prazer.

Vou lhe contar um segredo: a arma mais importante para se ter sucesso em parar de fumar, além da determinação, é a informação. Portanto, venha comigo! Prometo que não lhe farei, durante a leitura deste texto, precisar de fumar um cigarrinho para manter a concentração e ficar acordado.

Aposto contigo que seu interesse será mantido à medida em que prossegue na leitura!

Parar de Fumar e o Sistema de Recompensa: o modelo do rato

Parar de fumar. Rato de Brinquedo.
Parar de fumar. Rato de Brinquedo.

Em 1953, dois cientistas, Olms e Milner, realizaram um dos experimentos mais sensacionais da neurociência. Inseriram um eletrodo na cabeça de ratos e verificaram, estarrecidos, que os ratos apertavam repetidamente uma alavanca que ativava o circuito. Tal circuito enviava um sinal elétrico para a região hoje conhecida como "Sistema de Recompensa".

A sensação de ter o Sistema de Recompensa ativado era tão boa que os ratos se esqueceram de suas funções básicas: comer, dormir e beber água. O desfecho não podia ser mais trágico: morriam, esgotados, de prazer!

Apesar de ter sido o responsável pela morte dos ratinhos, a ativação do Sistema de Recompensa é vital e responsável pela sobrevivência dos animais. O ser humano necessita desempenhar funções estritamente necessárias à sua sobrevivência: comer, beber, transar, dormir, urinar e… fumar!

Opa, este último NÃO é necessário à sobrevivência. Pelo contrário, é deletério! Causa danos (e você sabe disso!)!

O processo evolutivo selecionou aqueles capazes de melhor desempenhar estas funções vitais. Logo, justifica-se porque, para a gente, é tão prazeroso se alimentar, ter uma relação sexual, beber água quando com sede: o envio de um sinal elétrico, de uma forma natural, que ativa o Sistema de Recompensa com intensidades variáveis.

O experimento dos ratos ativou este sistema com tanta intensidade que as funções vitais não se tornaram mais tão importantes para eles.

Com o uso de cigarro e outras drogas, isto não é muito diferente. A ativação, principalmente nos primeiros usos, dá-se com tanta intensidade, que o fumante busca sentir este prazer do primeiro uso a cada tragada seguinte.

Parar de Fumar: O Grande Vilão é a NICOTINA!

Beber água ajuda a parar de fumar
Beber água ajuda a parar de fumar

Presente nas folhas de tabaco, o cigarro traz consigo mais de 5.000 substâncias prejudiciais para a nossa saúde. Dou alguns exemplos: amoníaco, arsênio, benzopireno, formol, naftalina, níquel e polônio.

Mas o grande vilão para parar de fumar, responsável pelo vício, é a nicotina. Em menos de 10 segundos, a nicotina consegue atravessar todo o corpo e chegar ao cérebro. Ela atravessa a barreira hematoencefálica, algo que poucos conseguem, e estimula com intensidade o Sistema de Recompensa. Essa rapidez de efeito se compara à cocaína e ao crack!

Lembre-se do experimento do rato! Rapidamente, a nicotina atinge o Sistema de Recompensa! Como uma analogia ao experimento, podemos dizer que seria como se apertássemos a alavanca a cada tragada!

Uau! Maravilha! Não precisamos de mais nada! O prazer experimentado pelo hábito de fumar cigarro cria um paraíso bioquímico no Sistema Nervoso Central do fumante…

O fenômeno da tolerância

Cigarros e tolerância
Cigarros e tolerância

À medida em que o hábito de fumar avança, passa a imperar o fenômeno da tolerância: necessidade de doses cada vez maiores de nicotina a fim de alcançar os efeitos.

Você acende um cigarro e, com apenas duas tragadas, já é possível:

  • ficar alerta
  • sentir prazer
  • sensação de bem-estar
  • modular o apetite
  • sensação de alívio do estresse
  • ficar mais concentrado

É natural pensar que o cigarro atua ativamente no nosso cérebro e causa estes efeitos positivos. Na realidade, após cerca de uma hora sem o uso de cigarro, o efeito ativador da nicotina se dissipa, sendo necessário fumar novo cigarro.

Diariamente, você que fuma sente o efeito da síndrome da abstinência! Até porque, em uma noite de sono, virtualmente, não há mais nicotina no cérebro ao acordar. Você se sente estranho, com dificuldade de concentração, sonolento durante o dia, irritado, ansioso…

O que fazer? Fumar um cigarro? É o que a maioria das pessoas faz! Após as primeiras tragadas, o alívio destas sensações se dá pelo alívio da abstinência do cigarro. Sim, estes são sintomas de abstinência!

A síndrome de abstinência: por que é tão difícil abandonar o vício

A abstinência causa sintomas desagradáveis
A abstinência causa sintomas desagradáveis
Nicotina e o modelo da fechadura
Nicotina e o modelo da fechadura

Os receptores para nicotina, que fazem o papel de "fechaduras" onde a nicotina se liga, aumentam em densidade a cada cigarro fumado. Como analogia, pense em um jardim bem cuidado que apresenta cada vez mais rosas conforme mais se cuida delas. E a nicotina representa este "cuidado"!

No momento em que o fumante decide abandonar o vício, os receptores continuam em abundância no nosso cérebro. Sem nicotina, o cérebro entra em pânico e inicia o que chamamos de síndrome de abstinência.

Porém, é muito bacana pensar que, aos poucos, os receptores vão diminuindo, de forma que se pense em uma poda de rosas. Porque quando você não rega e cuida mais das rosas, elas murcham.

A síndrome de abstinência atinge o auge na primeira semana. Em cerca de um mês depois do último cigarro, você recuperará a sensação de bem-estar. Termina a sensação de abstinência. Sem dependência química.

Uma sensação de leveza e maior disposição. Melhora do paladar. Ausência de tosses e pigarros. Proteção de familiares e amigos que inalam a fumaça do seu cigarro.

Recapitulando

A dificuldade em parar de fumar decorre de três fatores:

  1. Os efeitos positivos gerados pela nicotina
  2. A síndrome de abstinência
  3. O comportamento aprendido associado ao cigarro

Parar de fumar: a última barreira

O cigarro e a bebida estão muito associados
O cigarro e a bebida estão muito associados

O hábito de fumar deixa uma marca importante nos centros de MEMÓRIA. O fumante associa o uso do cigarro a momentos de grande relevância emocional. São situações de risco para fumantes que desejam parar:

  • Estresse
  • Após refeições
  • Bebidas alcoólicas
  • Cafezinho
  • Tédio
  • Emoções negativas (tristeza, irritação)

A região límbica do cérebro armazena memórias emocionais associadas ao tabagismo. Mesmo meses após cessação, o fumante pode ter vontade de fumar ao confrontar essas situações condicionadas.

O melhor tratamento para parar de fumar

Mudanças no comportamento ajudam a parar de fumar

A técnica do Mindfulness (atenção plena) apresenta resultados promissores em estudos científicos. Baseada em meditação budista, foi apresentada pelo psiquiatra Judson Brewer da Universidade de Yale.

O conceito é desenvolver consciência sobre cada ato automático, saindo do "piloto automático".

Aplicativos para Smartphone

Alguns aplicativos ajudam a utilizar a técnica e lhe guiarão no processo de parar de fumar utilizando o método de atenção plena:

Craving to Quit - Aplicativo baseado no programa anti-tabagismo desenvolvido na Universidade de Yale.

App Craving to Quit
App Craving to Quit

Headspace - Aplicativo com foco em atenção plena e meditação.

App Headspace
App Headspace

Tratamento medicamentoso

Medicamentos para parar de fumar
Medicamentos para parar de fumar

O tabagismo frequentemente coexiste com outras doenças psiquiátricas como ansiedade, depressão e déficit de atenção.

Existem duas drogas com ótimos resultados que competem com a nicotina pelos receptores nicotínicos. Estudos indicam que o uso destes medicamentos podem triplicar o índice de cessação. São indicados para TODOS os fumantes.

Chicletes e adesivos de nicotina

Adesivo de nicotina
Adesivo de nicotina

A combinação de adesivo de nicotina contínuo com goma de nicotina conforme necessário aumenta em três vezes a probabilidade de sucesso.

Dicas importantíssimas para se ter sucesso

Marque um dia para parar de fumar
Marque um dia para parar de fumar

Reconhecer situações de risco

  • Irritabilidade
  • Tédio
  • Sintomas de abstinência
  • Estresse ocupacional
  • Contextos sociais (álcool)

Informações críticas para evitar recaídas

  1. ESTABELEÇA METAS: estipule data específica para parar
  2. EVITAR ÁLCOOL: extremamente importante durante tratamento
  3. SINTOMAS MELHORAM: a vontade intensa passa rapidamente
  4. CIGARRO NÃO ACALMA: apenas alivia abstinência que ele causa
  5. NEM UMA TRAGADA: 90% dos fumantes recaem após uma tragada
  6. DOENÇA CRÔNICA: recaídas são frequentes; metade dos fumantes bem-sucedidos fez 4+ tentativas

Tabagismo é uma DOENÇA CRÔNICA. As recaídas são frequentes, mas há um processo de aprendizado a cada recaída. Metade dos fumantes que param em definitivo faz quatro ou mais tentativas. Portanto, não desista!

Dr. Pedro Henrique Meneses

Dr. Pedro Henrique Meneses

Psiquiatra

  • Médico, Universidade Federal do Espírito Santo, 2011
  • Médico Psiquiatra, Instituto Philippe Pinel do Rio de Janeiro, 2015
  • Psiquiatra associado, Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 2012
  • Psiquiatra da Infância e da Adolescência, CARIM-IPUB, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2016
  • Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental, Instituto WP de Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2018