Voltar para BlogPsiquiatria Infantil

Quando levar meu filho ao psiquiatra infantil?

Dr. Pedro Henrique18 de agosto de 20268 min de leitura

Leve seu filho ao psiquiatra infantil quando um comportamento ou um sofrimento persistir por semanas e atrapalhar a vida da criança: a escola, as amizades, o sono ou a rotina da família. Essa é a regra prática. Fase passageira melhora sozinha; transtorno persiste e cobra um preço.

Essa é uma das dúvidas que mais recebo no consultório, quase sempre acompanhada de culpa: "Será que estou exagerando?". Vou lhe contar: procurar avaliação não é exagero, é cuidado. A consulta serve justamente para separar o que é fase do que precisa de tratamento.

Quais sinais justificam uma avaliação?

Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. O que pesa é a persistência e o prejuízo. Fique atento quando a criança ou o adolescente apresentar, por várias semanas:

  • Queda no rendimento escolar ou reclamações repetidas da escola
  • Tristeza, irritabilidade ou choro frequente, sem motivo proporcional
  • Medos intensos que limitam a rotina (não dormir sozinho, recusar a escola)
  • Agitação, impulsividade ou desatenção bem acima do esperado para a idade
  • Isolamento: perder o interesse por amigos e por atividades que gostava
  • Mudanças fortes no sono ou no apetite
  • Atrasos no desenvolvimento: fala, interação, contato visual
  • Comportamentos repetitivos que tomam tempo e causam sofrimento
  • Qualquer fala sobre morte ou sobre se machucar. Neste caso, procure ajuda imediatamente

Sinais que mudam com a idade

Na primeira infância (até 5 anos), os sinais aparecem no desenvolvimento: atraso de fala, pouco contato visual, não responder ao nome, irritação extrema com barulhos e mudanças de rotina. São os sinais que pedem avaliação para Transtorno do Espectro Autista, e quanto mais cedo, melhor a resposta à intervenção.

Na idade escolar (6 a 12 anos), a escola vira o termômetro: desatenção, agitação, dificuldade para aprender, recusa escolar, dores de barriga e de cabeça repetidas em dia de aula (a ansiedade fala pelo corpo nessa idade).

Na adolescência, o alerta é a mudança de padrão: o adolescente que se isola do próprio grupo de amigos, abandona o que gostava, dorme mal, irrita-se com tudo ou fala em não ver sentido na vida. Não aceite o rótulo de "aborrecência" para um sofrimento que persiste.

Psicólogo ou psiquiatra infantil: qual procurar primeiro?

Os dois trabalham juntos, e muitas vezes a criança precisa dos dois. A diferença: o psiquiatra infantil é médico. É ele quem fecha o diagnóstico, afasta causas físicas, decide se há indicação de medicamento e acompanha o tratamento como um todo. O psicólogo conduz a psicoterapia, parte essencial de quase todos os tratamentos.

Se você está em dúvida sobre o que o seu filho tem, a avaliação médica é um bom ponto de partida: ela organiza o diagnóstico e define o plano, que pode incluir psicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e orientação aos pais.

Como é a consulta com o psiquiatra infantil?

Diferente do que muitos pais imaginam, a consulta não é um interrogatório da criança. Ela envolve:

  1. Conversa com os pais, com espaço para a história completa: gestação, desenvolvimento, escola, rotina, família
  2. Tempo com a criança, muitas vezes brincando. No meu consultório, há uma brinquedoteca justamente para isso: é brincando que a criança mostra como pensa e sente
  3. Informações da escola, quando necessário
  4. Devolutiva clara aos pais: o que há, o que não há, e qual o plano

"Mas eu não quero medicar meu filho"

Eu entendo, e você não está sozinho nesse receio. Duas coisas importantes: primeiro, consulta não é sinônimo de remédio: boa parte dos tratamentos em psiquiatria infantil começa com orientação aos pais, ajustes na rotina e psicoterapia. Segundo, quando o medicamento é indicado, ele é usado com critério, dose ajustada e acompanhamento próximo. O objetivo nunca é "dopar", é devolver à criança a capacidade de aprender, brincar e conviver.

O que tem custo alto, comprovado pelos estudos, é não tratar: prejuízo escolar, baixa autoestima e problemas que se arrastam para a vida adulta.

O melhor ainda está por vir!

Se algum sinal deste artigo descreveu o seu filho, não espere o problema crescer. Uma avaliação bem feita ou traz tranquilidade ("é fase, e aqui está o que observar") ou inicia cedo um tratamento que muda a trajetória da criança. Nos dois cenários, você sai ganhando.

Dr. Pedro Henrique Meneses

Dr. Pedro Henrique Meneses

Psiquiatra

  • Médico, Universidade Federal do Espírito Santo, 2011
  • Psiquiatra associado, Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 2012
  • Médico Psiquiatra, Instituto Philippe Pinel do Rio de Janeiro, 2015
  • Psiquiatra da Infância e da Adolescência, CARIM-IPUB, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2016
  • Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental, Instituto WP de Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2018
  • Emergência Psiquiátrica no Hospital Adauto Botelho (Hospital Estadual de Atenção Clínica)