Quando levar meu filho ao psiquiatra infantil?
Leve seu filho ao psiquiatra infantil quando um comportamento ou um sofrimento persistir por semanas e atrapalhar a vida da criança: a escola, as amizades, o sono ou a rotina da família. Essa é a regra prática. Fase passageira melhora sozinha; transtorno persiste e cobra um preço.
Essa é uma das dúvidas que mais recebo no consultório, quase sempre acompanhada de culpa: "Será que estou exagerando?". Vou lhe contar: procurar avaliação não é exagero, é cuidado. A consulta serve justamente para separar o que é fase do que precisa de tratamento.
Quais sinais justificam uma avaliação?
Nenhum sinal isolado fecha diagnóstico. O que pesa é a persistência e o prejuízo. Fique atento quando a criança ou o adolescente apresentar, por várias semanas:
- Queda no rendimento escolar ou reclamações repetidas da escola
- Tristeza, irritabilidade ou choro frequente, sem motivo proporcional
- Medos intensos que limitam a rotina (não dormir sozinho, recusar a escola)
- Agitação, impulsividade ou desatenção bem acima do esperado para a idade
- Isolamento: perder o interesse por amigos e por atividades que gostava
- Mudanças fortes no sono ou no apetite
- Atrasos no desenvolvimento: fala, interação, contato visual
- Comportamentos repetitivos que tomam tempo e causam sofrimento
- Qualquer fala sobre morte ou sobre se machucar. Neste caso, procure ajuda imediatamente
Sinais que mudam com a idade
Na primeira infância (até 5 anos), os sinais aparecem no desenvolvimento: atraso de fala, pouco contato visual, não responder ao nome, irritação extrema com barulhos e mudanças de rotina. São os sinais que pedem avaliação para Transtorno do Espectro Autista, e quanto mais cedo, melhor a resposta à intervenção.
Na idade escolar (6 a 12 anos), a escola vira o termômetro: desatenção, agitação, dificuldade para aprender, recusa escolar, dores de barriga e de cabeça repetidas em dia de aula (a ansiedade fala pelo corpo nessa idade).
Na adolescência, o alerta é a mudança de padrão: o adolescente que se isola do próprio grupo de amigos, abandona o que gostava, dorme mal, irrita-se com tudo ou fala em não ver sentido na vida. Não aceite o rótulo de "aborrecência" para um sofrimento que persiste.
Psicólogo ou psiquiatra infantil: qual procurar primeiro?
Os dois trabalham juntos, e muitas vezes a criança precisa dos dois. A diferença: o psiquiatra infantil é médico. É ele quem fecha o diagnóstico, afasta causas físicas, decide se há indicação de medicamento e acompanha o tratamento como um todo. O psicólogo conduz a psicoterapia, parte essencial de quase todos os tratamentos.
Se você está em dúvida sobre o que o seu filho tem, a avaliação médica é um bom ponto de partida: ela organiza o diagnóstico e define o plano, que pode incluir psicoterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e orientação aos pais.
Como é a consulta com o psiquiatra infantil?
Diferente do que muitos pais imaginam, a consulta não é um interrogatório da criança. Ela envolve:
- Conversa com os pais, com espaço para a história completa: gestação, desenvolvimento, escola, rotina, família
- Tempo com a criança, muitas vezes brincando. No meu consultório, há uma brinquedoteca justamente para isso: é brincando que a criança mostra como pensa e sente
- Informações da escola, quando necessário
- Devolutiva clara aos pais: o que há, o que não há, e qual o plano
"Mas eu não quero medicar meu filho"
Eu entendo, e você não está sozinho nesse receio. Duas coisas importantes: primeiro, consulta não é sinônimo de remédio: boa parte dos tratamentos em psiquiatria infantil começa com orientação aos pais, ajustes na rotina e psicoterapia. Segundo, quando o medicamento é indicado, ele é usado com critério, dose ajustada e acompanhamento próximo. O objetivo nunca é "dopar", é devolver à criança a capacidade de aprender, brincar e conviver.
O que tem custo alto, comprovado pelos estudos, é não tratar: prejuízo escolar, baixa autoestima e problemas que se arrastam para a vida adulta.
O melhor ainda está por vir!
Se algum sinal deste artigo descreveu o seu filho, não espere o problema crescer. Uma avaliação bem feita ou traz tranquilidade ("é fase, e aqui está o que observar") ou inicia cedo um tratamento que muda a trajetória da criança. Nos dois cenários, você sai ganhando.

Dr. Pedro Henrique Meneses
Psiquiatra
- • Médico, Universidade Federal do Espírito Santo, 2011
- • Psiquiatra associado, Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 2012
- • Médico Psiquiatra, Instituto Philippe Pinel do Rio de Janeiro, 2015
- • Psiquiatra da Infância e da Adolescência, CARIM-IPUB, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2016
- • Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental, Instituto WP de Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2018
- • Emergência Psiquiátrica no Hospital Adauto Botelho (Hospital Estadual de Atenção Clínica)