Meu filho começou o tratamento psiquiátrico. As 12 dúvidas que os pais me trazem nas primeiras semanas
Se o remédio deixou seu filho apático, choroso ou "apagado", isso não é o efeito esperado: é sinal de que a dose ou o medicamento precisam de ajuste, e é a primeira coisa que quero saber. Este artigo reúne as perguntas que pais e mães me trazem por e-mail e WhatsApp nas semanas seguintes à primeira consulta. Se você ainda está no passo anterior, comece por Quando levar meu filho ao psiquiatra infantil?.
1. Meu filho mudou. É o remédio, é o transtorno ou é outra coisa?
Essa é a pergunta número um do meu consultório, e a resposta começa com observação organizada. Antes de me escrever, anote quatro coisas: desde quando a mudança apareceu, em que horário do dia acontece, como andam as noites de sono e se algo mudou na escola ou na rotina. Com esses quatro dados, quase sempre consigo distinguir por mensagem o que é efeito do medicamento, o que é o transtorno em atividade e o que é a vida acontecendo: prova na escola, briga com amigo, semana de sono ruim. Sem eles, qualquer um chuta, inclusive o médico.
2. Ele ficou apático, "zumbi". O remédio vai mudar a personalidade dele?
Não vai, e apatia não é o alvo de nenhum tratamento que eu prescreva. Quando o estimulante está na dose certa, a criança continua curiosa, brincalhona e teimosa como sempre foi, só que conseguindo terminar o que começa. Criança "apagada", chorosa ou sem graça é dose alta ou medicamento errado para ela, e isso se corrige. Me avise assim que notar; não espere o retorno achando que é o preço do sossego.
3. Parou de comer direito. E o crescimento?
Apetite reduzido é o efeito mais comum dos estimulantes, e tem manejo doméstico que funciona: café da manhã reforçado antes da dose, lanche calórico no fim da tarde, quando o efeito passa, e jantar um pouco mais tarde. O impacto sobre o crescimento, quando existe, é pequeno e monitorável: peso e altura são medidos em toda consulta, e a curva de crescimento manda mais do que qualquer impressão. Se a curva desviar, a gente ajusta dose, horário ou faz pausas programadas.
4. Apareceu dor de cabeça, dor na barriga, um tique novo. É efeito colateral? Suspendo?
Não suspenda sem me avisar: suspensão abrupta embaralha a leitura e a gente perde a chance de saber o que causou o quê. Dor de cabeça nas primeiras semanas costuma ter mais a ver com sono e horário da dose do que com o fármaco em si; dor de barriga melhora tomando o remédio junto com alimento; tique que aparece pode ser da ansiedade de base, que sempre esteve lá. Me mande o relato com horário do sintoma e como foi a noite anterior, e decidimos juntos.
5. Ele não dorme, ou fica agitado no fim da tarde
Existe um fenômeno com nome: o efeito rebote, o "crash" do fim da tarde, quando o estimulante sai do organismo, tipicamente entre 17 e 19 horas, e a criança parece pior do que antes do remédio. Não é o transtorno piorando: é o efeito acabando. Ajuste de horário, de formulação ou uma dose de reforço pequena resolvem a maioria dos casos. Insônia de início de noite também tem manejo: horário da última dose, higiene do sono e, quando preciso, revisão do esquema. Anote o horário exato em que a agitação aparece: essa informação vale ouro na consulta.
6. Quanto tempo demora? Como sei se está funcionando?
Depende do remédio. Estimulantes para TDAH agem no mesmo dia; o que leva algumas semanas é encontrar a dose certa para o seu filho. Antidepressivos em crianças e adolescentes levam 4 a 8 semanas para mostrar o efeito completo. Nas primeiras semanas de antidepressivo, fique atento a agitação nova, irritabilidade intensa ou falas sobre morte: isso pede contato comigo no mesmo dia. Em risco imediato, ligue para o CVV no 188 ou para o SAMU no 192, ou vá ao pronto-socorro. E como medir? Não só pela impressão de casa: peço retorno da escola, porque professor passa horas por dia com a criança em tarefa estruturada, exatamente onde o TDAH mais aparece. Melhora que só existe em casa, ou só na escola, é informação importante para o ajuste.
7. Precisa tomar no fim de semana e nas férias?
O TDAH não tira folga: ele afeta a convivência com a família, as amizades, o esporte e até a segurança da criança, não apenas a lição de casa. Por isso a regra geral é manter a medicação todos os dias. Pausas programadas existem e têm indicação, principalmente quando o apetite e o peso preocupam, mas são uma decisão combinada comigo, caso a caso, nunca uma regra automática de sexta-feira.
8. Estimulante vicia? Vai levar meu filho a drogas no futuro?
Usado como prescrito, não vicia, e o medo do futuro tem resposta melhor ainda: os estudos que acompanharam crianças com TDAH por anos não mostram aumento de uso de drogas entre as tratadas; alguns mostram o contrário, redução do risco. Faz sentido: o TDAH sem tratamento, com impulsividade e fracasso escolar acumulado, é que abre portas ruins. O cuidado real é logístico: o remédio fica guardado com o adulto, na dose certa, sem "emprestar" para ninguém.
9. Devo contar para a escola? E o laudo para prova?
Conte. A escola é parceira do tratamento: é ela que informa se a atenção melhorou em aula, e é lá que as adaptações acontecem. As formulações de liberação prolongada existem justamente para a criança não precisar tomar dose no colégio. Sobre documentos: laudo para adaptação escolar, para o ENEM ou para mudança de colégio tem finalidades diferentes e conteúdos diferentes. Ao pedir, diga para que serve e com que prazo; 15 dias de antecedência evitam a corrida de véspera que ninguém merece. A lei brasileira, desde 2021, garante acompanhamento específico para alunos com TDAH e dislexia na educação básica.
10. Meu filho adolescente parou o remédio sozinho. E agora?
Primeiro, sem bronca: adolescente que abandona o tratamento em segredo está dizendo alguma coisa, em geral que não participou da decisão de tratar. A saída não é vigiar comprimido, é trazer o adolescente para dentro da conversa: o que ele sente com o remédio, o que o incomoda, o que ele quer melhorar. A partir daí, ele entra na consulta como protagonista, não como pauta. Me avise que a gente remarca e recomeça do jeito certo.
11. Pode tomar antitérmico, antialérgico, antibiótico junto?
Os analgésicos e antitérmicos comuns, como paracetamol e ibuprofeno, são compatíveis com os psicofármacos que uso em crianças. Os cuidados ficam com os descongestionantes que contêm pseudoefedrina, que somam estimulação, e com alguns antibióticos e o tramadol em esquemas específicos. A regra da casa vale aqui também: pediatra receitou algo novo, me mande uma foto da receita ou da caixa antes de começar. Resposta rápida, começo tranquilo.
12. Vai tomar para sempre? Quanto custa manter?
Não necessariamente. A necessidade é reavaliada pelo menos uma vez por ano, muitas vezes com uma janela planejada sem medicação, marcada para um período sem provas. Parte dos adolescentes seguirá se beneficiando na vida adulta; outra parte não precisará mais. Para antidepressivos, o horizonte típico é de 6 a 12 meses após a melhora. Sobre o custo: no Espírito Santo, o metilfenidato pode sair de graça pela Farmácia Cidadã, por um protocolo estadual com regras próprias, que descrevi passo a passo em Farmácia Cidadã: como conseguir seu medicamento gratuito pelo SUS.
O melhor ainda está por vir!
As primeiras semanas do tratamento de um filho testam a paciência de qualquer família: cada bocejo vira suspeita, cada birra vira pergunta. Isso passa, e passa mais rápido com dados. Meu convite prático: durante 2 semanas, anote num caderno ou no celular o sono, o apetite e um fato marcante do dia, e traga essas anotações junto com o retorno da escola para a próxima consulta. Com esse material na mesa, cada ajuste é certeiro, e quem colhe o resultado é o seu filho.

Dr. Pedro Henrique Meneses
Psiquiatra
- • Médico, Universidade Federal do Espírito Santo, 2011
- • Psiquiatra associado, Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 2012
- • Médico Psiquiatra, Instituto Philippe Pinel do Rio de Janeiro, 2015
- • Psiquiatra da Infância e da Adolescência, CARIM-IPUB, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2016
- • Especialista em Terapia Cognitivo-comportamental, Instituto WP de Santa Maria, Rio Grande do Sul, 2018
- • Emergência Psiquiátrica no Hospital Adauto Botelho (Hospital Estadual de Atenção Clínica)