Suicídio: 9 mitos sobre o suicídio que você deve ajudar a desconstruir!

9 mitos sobre o suicídio que você deve ajudar a desconstruir
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O suicídio é assunto do Setembro Amarelo, conhecido como mês da conscientização e prevenção ao suicídio. Diversas ações são promovidas com o intuito de prevenir o suicídio e defender a vida.

O principal problema do suicídio, além do ato em si, está no preconceito. É comum estigmatizar aquele que tem o comportamento suicida. São pessoas que são levadas a se sentirem envergonhadas e discriminadas.

Você poderá encontrar mais informações sobre o suicídio clicando neste link.

No Brasil, morre-se de suicídio mais do que se morre por AIDS! Ao redor do mundo, há cerca de um milhão de suicídios a cada ano.

O que é mais preocupante: a taxa de suicídios em adultos jovens vem aumentando.

Reuni, neste artigo, alguns mitos sobre o suicídio. Meu objetivo é ajudar a retirar o estigma desse problema de saúde pública.

 

1. Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode incentivar o ato.

Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode incentivar o ato

 

O senso-comum costuma apontar que falar sobre suicídio atrai o suicídio. Como se fosse um bicho-papão que vem à noite e devemos esconder nossos pés por debaixo do cobertor, pois assim ele não terá consciência da nossa presença. O bicho-papão (o suicídio, no caso em questão) estará lá, quer coloquemos nosso pé fora do cobertor ou não.

É necessário conversar sobre o pensamento de acabar com a própria vida, compreender os motivos, se há planejamento para o ato, mostrar-se disponível e evitar censurar aquele que sofre.

Além disso, não é proibido que a mídia fale sobre suicídio. Ela tem a obrigação social de tratar desse tema de forma adequada, e não sensacionalista. É fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda e quais os caminhos para proteger um conhecido com ideação suicida.

 

2. Sinais de alívio da depressão apontam para ausência de risco de suicídio.

Sinais de alívio da depressão apontam para ausência de risco de suicídio



Se, repentinamente, alguém que demonstrava ideação suicida parecer tranquilo, aliviado, isso não significa que o problema já passou. A decisão de se matar pode, por si só, deixar aquele com ideação suicida mais tranquilo.

Sabe-se que o sofrimento está na indecisão, na ausência de perspectivas ou planos. Tomar uma decisão é visto como algo que acalma, mesmo que seja a decisão errada de se matar.

Portanto, fique alerta, também, para aquele que se mostrar mais aliviado, pois ele pode ter tomado a decisão e terá sérios riscos de praticar o ato em um futuro próximo.

 

3. Pessoas que ameaçam se matar querem apenas chamar atenção.

Pessoas que ameaçam se matar querem apenas chamar atenção



Boa parte daqueles que cometem suicídio expressou, nas semanas anteriores ao ato, sua vontade de cometê-lo. Ou seja, pediu ajuda!

Não veja a ameaça de se matar como forma de chamar atenção! O risco existe! Toda pessoa que fala sobre suicídio tem risco em potencial e merece atenção especial!

Pode haver suicídio, também, por “erro de cálculo” ou impulsividade.

 

4. Suicídio tem a ver com aspectos filosóficos ou religiosos apenas.

Suicídio tem a ver com aspectos filosóficos ou religiosos apenas



Neste ponto, podemos abordar questões existenciais e, até mesmo, o fundamentalismo religioso. Com relação ao extremismo religioso, atualmente se estuda para categorizar os terroristas como doentes mentais.

Ou seja, entende-se, assim, que um tratamento médico poderia reduzir o risco dos atos terroristas, ao visualizar que boa parte destes indivíduos podem sofrer de algum transtorno mental!

Suicídio é um problema médico: 90% das pessoas que cometeram suicídio foram diagnosticadas com algum transtorno psiquiátrico, como a depressão, o transtorno bipolar e a esquizofrenia.

Doenças crônicas, principalmente aquelas que causam dor, aumentam, também, o risco de suicídio.

O paciente desesperançado tem maior risco de suicídio. Normalmente, não se visualiza perspectivas futuras ou planos de mudança. Não se vê saída! O ato vem para acabar com um sofrimento entendido erroneamente como inescapável, inesgotável e insuportável.

Neste quesito, entra um preceito utilizado na Psicoterapia Cognitivo-Comportamental denominado “distorção cognitiva”. A distorção cognitiva é o ato de distorcer situações ou pensamentos, de forma que passam a não corresponder à realidade. É mantenedora do sofrimento mental e dos transtornos mentais.

Todos podemos ter distorções cognitivas e elas estão bem enraizadas nos transtornos mentais. Por isso, faz-se necessário o questionamento destes “erros de processamento”.

Dentre as mais de 15 categorias de distorções cognitivas, citarei cinco:

  1. Pensamento “8 ou 80”:

    Quando não visualizamos realidades possíveis além de duas categorias extremas, sem uma linha de continuidade entre elas. “Não fui bem na prova. Portanto, sou uma péssima aluna!”.

  2. Catastrofização:

    Quando aumentamos a gravidade das coisas. Ou seja, a tempestade em copo d’água. Imaginar o pior desfecho para situações mesmo banais. “Não irei viajar, pois tenho certeza de que irei passar mal.”.

  3. Leitura mental:

    Quando passamos a identificar o que as pessoas pensam sem ter evidências a respeito disso. “Eu sei que ele me odeia!”.

  4. Personalização:

    Quando nos colocamos como fator principal ou único em situações que envolvam o controle de outras pessoas ou não se tenha controle do resultado. “Meu filho usou drogas porque eu falhei.”.

  5. Rotulação:

    Quando classificamos as pessoas e a nós mesmos com termos fixos e definitivos acima de qualquer evidência. “Eu sou um fracassado!”.

 

5. É melhor não incomodar aquele que está deprimido.

É melhor não incomodar aquele que está deprimido



Uma boa rede de apoio protege contra o suicídio.

São alguns fatores de risco ao suicídio: doenças mentais, idade entre 15 e 30 anos e acima de 65 anos, ausência de filhos, desempregados ou aposentados, isolamento social, solteiros, separados ou viúvos, perdas recentes, personalidade impulsiva, doenças crônicas, dor física e ter tentado suicídio outras vezes.

São fatores que podem precipitar o suicídio: desilusão amorosa, separação, conflitos relacionais, prejuízos financeiros, perda de emprego, desonra e vergonha, embriaguez e acesso a um meio letal.

São fatores de proteção ao suicídio: autoestima elevada, laços sociais bem estabelecidos com família e amigos, crenças religiosas e razões para viver (como ter filhos, por exemplo!), ausência de doença mental e acesso a serviços de saúde mental.

 

6. É impossível prevenir o suicídio!



O vídeo acima, em inglês, é uma campanha da Samsung realizada em 2012, na ponte Mapo, em Seul, na Coréia do Sul. A ponte Mapo ficou conhecida como uma das pontes com maior índice de suicídio do mundo. A campanha rebatizou-a de “Ponte da Vida” após realizar uma solução criativa para diminuir as taxas de suicídio.

A proposta inicial do Governo era construir um muro bem alto ou até mesmo fechar a ponte. No entanto, foram instaladas luzes que se acendem mostrando mensagens e imagens motivacionais na medida em que se caminha. O objetivo é guiar o suicida até o final da ponte, são e salvo.

A campanha foi responsável por reduzir em 85% a taxa de suicídios na época!

Esse é um ótimo exemplo de que abordar aquele que tem risco de suicídio ajuda a reduzir seus riscos. Não é preciso ser psicólogo ou psiquiatra! A pessoa precisa ser ouvida, falar sobre seu sofrimento.

Sugeri-la esquecer o sofrimento não necessariamente é uma boa estratégia, uma vez que é necessário falar sobre o tema (o bicho-papão está ali!).

Lembrando o que o Mito 1 aponta: falar sobre suicídio diminui o risco de suicídio!

Entende-se que 90% dos suicídios são preveníveis quando existe uma boa rede de proteção.

 

7. Aquele que realmente quer se matar não avisa.

Aquele que realmente quer se matar não avisa



Em grande parte das vezes, existe um pedido de ajuda, que pode ser feito de forma sutil (postagens no Facebook, por exemplo). Porém, ao prestarmos atenção a estes pedidos, estaremos contribuindo para reduzir o risco de suicídio e salvar vidas.

8. Suicídio é um ato de covardia (ou de coragem)!

Suicídio é um ato de covardia (ou de coragem)



Na verdade, o que dirige a ação de se suicidar é uma dor psíquica (ou física) insuportável. O entendimento de quem está com este nível de sofrimento é que esta dor não vai parar nunca! Logo, o único caminho que se visualiza é o de se matar…

Quase sempre, o suicida está passando por uma doença mental que altera sua percepção da realidade (lembra das distorções cognitivas?) e interfere em seu livre arbítrio.

 

9. Uma vez suicida, sempre suicida!

Uma vez suicida, sempre suicida



O risco de suicídio, quando bem tratado, é reduzido. Após o tratamento do transtorno mental, o desejo de se matar desaparece!

E, por último: conheço alguém que está sinalizando a possibilidade de cometer o suicídio. O que fazer?

Conheço alguém que está sinalizando a possibilidade de cometer o suicídio. O que fazer



Se você suspeita que alguém próximo a você está com planos para cometer o suicídio, aproxime-se!

• Pergunte se o pensamento existe e em que nível. Se já houve planejamento para o ato.

• Procure ouvi-lo atentamente. O simples ato de falar, por aquele que sofre, pode diminuir a ideação suicida.

• Expresse respeito e compreensão pelas opiniões, sentimentos e pelos valores dela, sem diminuí-los;

• Converse abertamente;

• Demonstre sua preocupação, seu cuidado e sua disponibilidade para ouvi-lo;

• Procure a família, amigos e rede de apoio para que seja possível o restabelecimento destes vínculos de proteção;

• Remova imediatamente objetos que possam causar danos: armas, facas, remédios, cordas, cintos, etc.;

• Ajude aquele que sofre a buscar ajuda. O Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional por meio de atendimento voluntário e gratuito de todas as pessoas que querem e precisam conversar.

 

O melhor ainda está por vir!

O melhor ainda está por vir



Busque atendimento psiquiátrico! Cerca de 90% das pessoas que cometem suicídio foram diagnosticados com algum transtorno psiquiátrico, como a depressão, o transtorno bipolar e a esquizofrenia.

São transtornos que, quando tratados por um profissional habilitado, podem reduzir consideravelmente o risco do ato e salvar vidas.

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Dr. Pedro Henrique Meneses

Psiquiatra Geral e Psiquiatra da Infância e da Adolescência

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Posted on 10 de setembro de 2016 in depressão, esquizofrenia, suicídio, transtorno bipolar

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Responses (5)

  1. Kátia M.
    23 de setembro de 2016 at 17:38 ·

    O texto abordou tema interessante: o tabu em torno do suicídio. A ausência da divulgação ao grande público de estatísticas sobre os episódios já demonstra a dificuldade que a sociedade tem em lidar com o problema. Não conhecia o exemplo da ponte de Seul. Vamos aguardar o interesse de nossos legisladores estaduais em fazer algo parecido na Terceira Ponte e em abordar o assunto como saúde pública. Parabéns pelo texto e pela sensibilidade na reflexão.

  2. Pedro Henrique Meneses
    25 de setembro de 2016 at 18:08 ·

    Kátia! Obrigado pelo seu comentário!

    Está em andamento um projeto de lei na Assembléia Legislativa do ES para colocar uma “tela” em toda a extensão da terceira ponte. Não tão “romântico” quanto a ponte de Seul, né? O que acha a respeito desta proposta? Abraços!

  3. Kátia M.
    29 de setembro de 2016 at 11:10 ·

    Puxa, a ideia é bacana. Espero que seja aprovada em breve. Afinal, um dos cenários mais deslumbrantes de nosso estado deveria servir de inspiração apenas para sorrisos e felicidade. Abraços!

  4. Renata Pedroso Santos
    10 de setembro de 2017 at 23:20 ·

    Dr Pedro, como sempre o seu trabalho reflete a sua excelência e profissionalismo em tudo o que faz! Obrigada pelo texto esclarecedor e de uma abordagem muito acessível a todos! Parabéns!

  5. Jefferson
    19 de abril de 2019 at 22:45 ·

    Adorei o artigo, estarei acompanhado, tem me ajudado muito.

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